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Negócio social é tendência em empreendedores que almejam transformar o mundo

Em seu livro, “A decisão que o mundo precisa”, o consultor Celso Grecco destaca que iniciativas com corpo de negócio e alma de ação social solucionam problemas coletivos com mais capacidade do que muitas vezes uma ONG consegue

O mundo está em crise, do ponto de vista econômico, social e ambiental. Tal fato não pode ser ignorado e transformações precisam ser realizadas urgentemente, não apenas pelos governantes, mas também pela sociedade civil. Neste sentido, o consultor e palestrante em desenvolvimento socioambiental, Celso Grecco, afirma que o ser humano necessita estourar a bolha do individualismo conscientizando-se de que vive antes de tudo de maneira coletiva, interdependente. Grecco exorta então o indivíduo a deixar de lado a indiferença e agir. Apenas dando o primeiro passo, por mais pequeno que seja, é possível mudar o mundo.

Em sua obra “A decisão que o mundo precisa – 7 caminhos para você sair da indiferença e fazer algo para o futuro da sociedade”, publicado pela Editora Gente, Grecco sugere maneiras de colocar em prática ações que podem transformar a sociedade. Uma delas diz respeito ao conceito de negócio social, que combina negócios com atuação social. “Nele, investidores e filantropos investem em iniciativas com corpo de negócio, mas alma de ação social, para dessa forma solucionarem os problemas coletivos com mais capacidade do que muitas vezes uma ONG conseguiria”, diz o autor.

Grecco explica que tais investimentos são realizados a partir de algumas premissas como estudar o mercado, definindo os preços dos produtos e serviços sem perder de vista que a iniciativa lidará com problemas sociais em camadas pobres. “Além disso, o investidor de negócios sociais aporta dinheiro com a expectativa de recebê-lo de volta em prazos muito mais longos e com juros mais baixos do que se investisse em uma empresa normal ou no mercado financeiro”, explica. Quem empreende nesse segmento também está ciente de que o objetivo primordial do negócio é o bem-estar social. Assim, é preciso lidar com uma possível baixa lucratividade com muita paciência.

O negócio social gera um tipo muito específico de lucro, chamado de lucro social, que pode ser entendido como um retorno – não somente financeiro, mas direcionado ao bem-estar da coletividade – de quem investe em um sociedade mais justa e com oportunidade para todos. Grecco pode ser considerado certamente um dos grandes incentivadores desse tipo de negócio. Isso porque, em 2003, lançou dentro da antiga Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), um programa chamado Bolsa de Valores Sociais, atualmente denominada Bolsa de Valores Socioambientais (BVSA).

Ao invés de empresas tradicionais, ONGs estavam listadas nessa Bolsa. E quem decidisse investir nelas não estaria em busca do lucro financeiro, mas do retorno social proporcionado por seus projetos e ações. Pela natureza de sua proposta, sempre foi muito difícil para as ONGs conseguirem que suas iniciativas fossem financiadas por bancos ou empresas privadas. Além de um local para apresentação de organizações sérias, com trabalhos relevantes e resultados comprovados, a Bolsa desenvolvida por Grecco serviu como uma chancela para que as grandes empresas decidissem investir. “A grande maioria desses investidores nunca nem visitaria essas ONGs, mas confiava que o fato de estarem na Bolsa significava que eram de confiança”, relata.

Esse tipo de aporte impulsionado pela iniciativa de Grecco ganha cada vez mais força, sendo chamado de investimento de impacto. Para se ter uma ideia do quão grande é este setor atualmente, estima-se que em em 2018, de acordo com relatório publicado pela Global Impact Investment Network, ele tenha recebido aproximadamente 228 bilhões de dólares.

De acordo com Grecco, esse segmento vem despertando a atenção de milhares de pessoas no Brasil e no mundo, que desejam criar os próprio negócios sociais ou apoiar ONGs a partir de suas habilidades profissionais, para que elas se tornem atraentes a investidores e não somente a doadores. “É cada vez mais clara a percepção de que não é necessário escolher entre ganhar dinheiro e doar. É possível criar uma combinação do melhor destes mundos e fazer desta razão de ser e missão pessoais”, afirma.

Democratização da saúde visual

Em seu livro, Grecco cita alguns exemplos de negócios sociais que vem surtindo efeito no Brasil. A Renovatio é um deles. A empresa, com corpo de negócio, mas alma de ação social, realiza exames oftalmológicos gratuitos e doações de óculos de grau para adultos e crianças em vulnerabilidade social em todo o Brasil. Cofundada por Ralf Toenjes, jovem que já foi apontado pela Forbes na lista UNDER 30 como um dos mais promissores do Brasil antes dos 30 anos, a organização social viaja o país com um ônibus adaptado transformado em duas clínicas oftalmológicas. A iniciativa acredita que a saúde visual é fundamental para que as pessoas alcancem o máximo de seu potencial e assim tenham uma vida mais digna.

Ao iniciar sua atividade social, Toenjes percebeu que a demanda por óculos no Brasil e no mundo era gigantesca. Em 2013, no Mundial Enactus, competição que premia os melhores projetos universitários de impacto social, foi informado por um grupo de estudantes alemães que no mundo havia 680 milhões de pessoas que necessitavam de óculos sem condições financeiras para obtê-los. No Brasil, estava ciente de que apenas 15% dos municípios têm um oftalmologista.

A vontade de ajudar era grande, mas os desafios também. Era preciso encontrar uma solução que fornecesse as premissas adequadas para a produção de óculos em grande escala, baratos e de boa qualidade. Isso se deu através da importação da tecnologia do projeto Good Vision, de uma ONG alemã chamada One Dollar Glass, e também através da criação da ótica Ver Bem, cujo intuito é tornar o mercado óptico mais acessível e democrático, levando óculos de qualidade e com preço justos aos brasileiros.

A parceria com a ONG internacional levou saúde visual a países como Haiti, Bolívia, Índia, Malawi, Burkina Faso, Nepal e Quênia. No Brasil, a Renovatio já doou 50 mil óculos, em 21 estados.

Reformar a casa e reformar a vida

Mencionado no livro “A decisão de que o mundo precisa”, como mais um caso de empresa que optou pelo negócio social, o Programa Vivenda tem como intuito principal contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas, facilitando a reforma de moradias daqueles que não têm condições financeiras para fazê-la.

A ideia para a execução do Programa Vivenda surgiu do administrador e empreendedor Fernando Assad, quando este participou de uma programa do Estado de São Paulo para reurbanização de favelas. A missão do empreendedor era fazer com que os moradores se apropriassem dos novos espaços, como praças e ruas, que surgiram da revitalização. Assad percebeu que a tarefa era mais complicada do que parecia, porque os habitantes continuavam vivendo em casas desestruturadas e isso tornava difícil o acolhimento de um espaço externo que não representava suas moradias.

Além disso, Assad inteirou-se do contexto da habitação do Brasil. Conforme o empreendedor, boa parte das ações voltadas para a habitação no país tem como foco construções novas, já que há um deficit de 6 milhões de moradias em todo o território nacional. Contudo, há um problema ainda maior que costuma ser ignorado: o deficit qualitativo das habitações já existentes. Cerca de 12 milhões de moradias no Brasil estão inadequadas e insalubres.

Em 2013, Assad e mais dois sócios resolveram tirar do papel a inciativa que teria como foco não a construção mas a reforma das casas de pessoas carentes. Para isso contaram com o apoio de uma ONG que atuava na área de habitação. Após diversas reuniões, em que ouviram os moradores, chegaram a conclusão de que o grande problema era a logística precária do material de construção e a mão-de-obra não qualificada. Descobriram ainda que o crédito fornecido por bancos públicos e privados para que pessoas carentes reformassem suas casas era inexistente.

Nesse sentido, o Programa Vivenda apresenta dois modelos de negócios: um de reforma subsidiada, em que famílias mais vulneráveis – com renda mensal de até um salário mínimo e meio – pagam só 30% da obra; e outro em que o morador arca com 100% da obra, podendo parcelar em até 15 vezes com juros bem baixos. Tratam-se de reformas de baixa complexidade, normalmente um cômodo por vez.. A empresa fornece também auxílio técnico que contribui para a realização do projeto técnico, orçamento e planejamento financeiro para a execução da obra.

O Programa Vivenda vem obtendo resultados interessantes. A empresa já fez por volta de 1600 reformas, impactando a vida de mais de 5600 pessoas.