Cultura

Em cada caos a Arte se reinventa

Etienne Henklein

“Que você viva tempos interessantes” é uma frase, supostamente de origem na milenar cultura chinesa, relacionada a rogar uma praga para uma pessoa. É um desejo para pessoa viver uma época de turbulências, incertezas e mudanças. Pois a humanidade passou por vários períodos de transformações e, nesses períodos, a arte sempre teve um papel importante. Porque ela ajuda não só a entender o mundo, mas também a dar sentido para o que acontece ao nosso redor. A atual pandemia, segundo o relatório da Comunidade de Inteligência dos Estados Unidos, é a “ruptura global mais significativa e singular desde a 2ª Guerra Mundial”. Portanto, estamos vivendo um desses “tempos interessantes”, e com a expectativa de como a arte vai responder ao que está por vir.

A Peste Negra, no século XIV, foi a pandemia mais arrasadora da história, e estima-se que cerca de um terço da população europeia tenha sido dizimada. E em uma região muito atingida, em Florença, surgiu o Renascimento e uma nova visão de mundo. A arte foi o meio de explorar todos os aspectos das transformações bem evidentes na cultura, sociedade, economia, política e religião. Outro momento importante foi durante a 1ª Guerra Mundial, um conflito global sem precedentes. No ano de 1916, em plena guerra surgiu o Dadaísmo, na neutra Suíça, um movimento radical de protesto contra uma civilização que não conseguiu impedir a guerra. Em seguida ocorreu a 2ª Guerra Mundial cuja consequência foi a mudança dramática do mapa da Europa e um saldo de 70 milhões de mortos. Com seu fim surgiram novas visões do mundo e a arte se reinventou. Tudo era novo: a bossa era nova, o cinema era novo. Surgiram diversos movimentos artísticos como Pop Art e Fluxus que pavimentaram o caminho da arte contemporânea.

A pandemia da COVID-19 caiu feito um raio sobre a sociedade moderna e mostrou sua fragilidade para enfrentar uma crise internacional. Situação essa que já vinha sendo desenhada principalmente pela degradação ambiental e desigualdade social. Em virtude de o vírus ser altamente contagioso, medidas de distanciamento social tiveram que ser adotadas e, assim, o setor cultural foi duramente atingido. Shows, bienais, exposições, produções cinematográficas, produções teatrais, tudo cancelado ou adiado. Museus sofreram impacto semelhante ao provocado pela 2ª Guerra. A UNESCO e o Conselho Internacional de Museus estimam que, em 2020, 90% dos museus mundiais tiveram que fechar suas portas temporariamente, e 13% destas instituições correm o risco de não reabrir. A cultura passou a ser mediada pela internet com lives dos músicos, visitas virtuais a acervos de museus, músicas pelas janelas nos emocionaram e ajudaram a manter a sanidade. Porque um dos papéis da arte é justamente esse: curar.

Telepresença, robótica, redes neurais artificiais, inteligência artificial, realidade virtual, realidade aumentada, ciborgues. Coisas que estamos habituados a ver em filmes de ficção científica, e que não são novidade na arte. Nas duas últimas décadas diversos artistas se destacaram utilizando a tecnologia na chamada arte digital. Experimentações estéticas com novas ferramentas vão prosseguir porque a arte se apropria da tecnologia da sua época. As artes visuais tradicionais, como pintura e escultura, também devem continuar, pinturas ainda são as obras que atingem recordes de valor nos leilões e galerias. A ótima novidade são os artistas ativistas de causas sociais e a valorização das produções relacionadas ao multiculturalismo, às minorias étnicas e questões de gênero.

“Tempos interessantes” são difíceis, mas deixam lições e estimulam a criatividade. Em tantos momentos críticos da história a arte se reformulou. Como afirma a pesquisadora e professora Lucia Santaella no seu livro Cultura e Artes do Pós-Humano, de 2003, “em tempos de mutação há que ficar perto dos artistas”. Sem arte, não conseguimos processar de forma fácil as complexidades da realidade. E o que devemos esperar da arte no futuro? Difícil prever. Talvez seja algo que nem a reconheceremos como estamos habituados a chamar de arte, pois ela é imprevisível, rica em ressignificações dela mesma nos tempos fluídos. A expectativa é que nos surpreenda com uma explosão de criatividade e que nos ajude a repensar quem somos.